Sandra Bastos
Henrique Dias tinha 10 anos quando começou a estudar música na Academia de Música Costa Cabral, no Porto. O gosto pela arte dos sons não foi imediato, foi crescendo de forma progressiva até que, quando chegou ao 8º ano de escolaridade, já não se imaginava a viver sem a música. Hoje, frequenta o segundo ano de licenciatura em Música, Tuba e Orquestração, na Universidade de Artes em Zurique, Suíça. Aplaudimos o seu talento quando ganhou o 1º lugar no concurso Prémio Jovens Músicos 2024, nível superior, em Tuba.
Quando concorreu ao Prémio Jovens Músicos (PJM), em 2024, Henrique Dias tinha o sonho de “poder tocar a Orquestra Gulbenkian” e conhecia “a magnitude e o prestígio” do PJM, que poderia impulsionar a sua carreira.
A preparação para o concurso implicou “um processo técnico e um processo mental”. O primeiro refere-se ao estudo da partitura e a interpretação, enquanto o segundo envolve o controlo do nervosismo durante a performance. “Esta preparação incluiu a visualização (simulação mental de um acontecimento do futuro) ou a própria repetição do momento em aulas, audições, etc... Acredito que quantas mais vezes estes processos forem realizados, melhor preparados iremos estar”, acrescenta.
O sonho de poder tocar com a Orquestra Gulbenkian
Os dois momentos mais difíceis do concurso foram a fase da gravação e a conciliação das provas de avaliação com as do PJM. A gravação é ingrata porque “a tuba é um instrumento muito difícil de captar” e é preciso encontrar as melhores condições de captação do seu som. Por outro lado, a final e a cerimónia de laureados foram mais especiais: “a felicidade por perceber que o meu trabalho tinha sido recompensado e valorizado teve um grande peso sentimental, obviamente.”
Porém, o momento mais alto foi a realização do sonho de tocar a solo com a Orquestra Gulbenkian. “Foi uma sensação espetacular! Quando entrei em palco, ouvir o apoio da minha família e amigos presentes, gerou um grande conforto em mim, afastando nervosismos que normalmente estão implícitos a momentos como este”, confessa. Durante a performance, sentiu-se “muito bem, confiante, feliz” e também consciente de que o momento que mais deseja estava a acontecer e, por isso, queria aproveitá-lo ao máximo. “Adorei tocar com a Orquestra Gulbenkian!”, sublinha.
Agradecimentos e momentos especiais
São muitas as pessoas a quem Henrique Dias agradece o apoio, começando pela família e amigos, que têm sido o seu suporte emocional, e, depois pelos professores que o têm acompanhado no seu crescimento pessoal e profissional - Jorge Fernandes, Sérgio Carolino, Henrique Costa e Anne Jelle Visser.
Em relação aos momentos, enquanto solista, destaca o 1º Prémio no PJM, um concerto a solo que realizou, em julho de 2022, com a orquestra de sopros da Academia de Música Costa Cabral e o seu recital final, no 12° ano.
Destaca também os dois programas que realizou com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. “Todas estas performances tiveram um impacto especial, de uma forma ou de outra, e são momentos nos quais ainda reflito, no presente”, afirma.
“gostaria de fazer música de forma feliz, com o mindset mais saudável e correto possível”
No presente, o jovem músico estuda em Zurique, na Suíça, e está “focado em melhorar todos os dias”, com o objetivo de entrar numa orquestra profissional e “desenvolver projetos pessoais, a solo, música de câmara, etc.”.
Confessa-se pessoa bastante curiosa, com vontade de experimentar “várias formas de fazer música”, um pouco por todo o mundo, quer seja em orquestra, em música de câmara ou a solo. “Acima de tudo, gostaria de fazer música de forma feliz, com o mindset mais saudável e correto possível”, diz.
“as características de um indivíduo são mais preponderantes do que o meio envolvente”
Considera que “as características de um indivíduo são mais preponderantes do que o meio envolvente” para o seu sucesso, embora existam ambientes que oferecem melhores condições para a evolução de um músico. Por exemplo, a Suíça, onde está a estudar, investe muito mais do que Portugal em educação e cultura. “Claramente, tenho de constatar o facto de a Suíça possuir uma capacidade financeira muito superior, o que possibilita a criação de tudo o que mencionei. Contudo, o dinheiro e apoio que consignam à Cultura poderia ser canalizado para outras áreas, demonstrando, desta forma, o seu interesse e empenho”, sublinha.
Por sua vez, Portugal tem várias lacunas relativamente à música erudita, não sendo um mercado atrativo para os músicos portugueses, acabando por se tornar “um excelente exportador de músicos”. Confessa que gostaria que “Portugal tivesse mais interesse na cultura e nas artes, para que o resultado não fosse, em muitos casos, a emigração”.
“o nosso país é dos mais capazes, pois combina uma musicalidade natural com um nível médio e secundário de alta exigência”
Para Henrique, “o nosso país é dos mais capazes, pois combina uma musicalidade natural com um nível médio e secundário de alta exigência e, consequentemente, de alto nível, quando comparado a muitos outros países”. Realça ainda a importância das bandas filarmónicas, que “tanto contribuem (desde tenra idade, em muitos casos) para o ensino e desenvolvimento de tantos instrumentistas de sopro”.
“No entanto, acredito que há falta de algum rigor e disciplina no país, o que, inevitavelmente, afeta a área da música: organização escolar, estágios, concertos... muitos dos quais sofrem de atrasos, indisciplina na sua preparação e realização, influenciando negativamente esta nova e talentosa geração”, aponta.
Quem é Henrique Dias
Henrique Dias é um jovem músico nascido em 2005. Aos 10 anos de idade, iniciou os seus estudos na AMCC, na classe de Eufónio com o professor Jorge Fernandes. Por volta dos 14 anos de idade, troca o Eufónio pela Tuba, instrumento que estuda até à data. Termina o curso de música com resultados de excelência.
Frequentou diversas masterclasses com renomeados artistas. Ao longo do seu percurso musical tem conquistado vários prémios e tem tido distinção em diversos concursos. Destacam-se 1º prémio no Concurso “Terras de la Salette”; 1º prémio no Concurso Online da APTE; 2º e 3º prémios em várias edições do Concurso AETYB; bem como um Prémio de Excelência que lhe proporcionou realizar um Concerto a Solo em julho de 2022, na Sala Suggia da Casa da Música.
Integrou vários Estágios na Orquestra do Festival BPS Júnior. Participou no Ensemble de Metais de Leiria e nas três edições do Festival para Metais Graves “Gravíssimo!”.
Já na Suíça, integrou a Jugend Sinfonieorchester Zürich (Orquestra de Jovens de Zurique) numa digressão a Espanha e no “Projeto Primavera”, na Tonhalle, em Zurique. Em 2024, foi o Tubista da Schweizer Jugend Sinfonie Orchester (Orquestra Jovem da Suíça) durante a tournée de Outono.
Tem participado em vários programas da Banda Sinfónica Portuguesa, e também tem sido convidado para realizar alguns programas com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música.
O Henrique faz parte da Banda Musical Leverense. É membro cofundador, com a irmã, Leonor Dias, do duo DDuo, Tuba e Saxofone. Ganhou o 1º lugar no Concurso Prémio Jovens Músicos 2024.
Atualmente está no segundo ano de licenciatura em Música, Tuba e Orquestração, na Universidade de Artes em Zurique, Suíça.