Luís Tinoco

“Round Time é uma espécie de bilhete de identidade"

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Sandra Bastos

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Luís Tinoco é o primeiro compositor português vivo a ver o seu trabalho divulgado na maior chancela mundial de música erudita, a Naxos. O disco Round Time chegou ao mercado no ano passado. Foi gravado no Auditório Gulbenkian em Junho de 2012 e inclui as primeiras gravações comerciais de quatro obras orquestrais/vocais: Round Time; From the Depth of Distance; Search Songs; e Canções do Sonhador Solitário. A interpretação é da Orquestra Gulbenkian, sob direcção de David Alan Miller, e das sopranos Ana Quintans, Yeree Suh e Raquel Camarinha.

 

Round Time, a peça que dá o título ao CD, foi escrita em 2002, em resposta a uma encomenda da Orquestra Nacional do Porto e, desde então, tem sido regularmente tocada pelas principais orquestras portuguesas. Recentemente teve a sua estreia francesa, pela Orchestre National de Montpellier e, no próximo ano, será de novo tocada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa. É, assim, na opinião de Tinoco, "a peça mais relevante no que se refere à sua vida "pós-estreia" e que tem despertado alguma atenção ", daí ser natural "fixá-la num suporte comercial, tornando-a ainda mais acessível".

 

"Mas, talvez mais importante, tomei esta opção por se tratar de uma partitura que contém as minhas "impressões digitais" como compositor, na qual utilizei muitos processos que viria a recuperar e a desenvolver em composições posteriores. É uma espécie de "bilhete de identidade" e, como tal, fazia todo o sentido colocá-la como peça central deste disco", acrescenta.

 

 

"um fechar de ciclo, um ponto de chegada num percurso de cinco anos intensamente dedicados à voz humana"

 

O restante repertório gravado no CD está todo centrado em composições para voz (soprano) e orquestra. Por ordem cronológica,  "Search Songs" (2007), "From the Depth of Distance" (2008) - ambas com textos de dois heterónimos de Fernando Pessoa - e, ainda, "Canções do Sonhador Solitário" (2012), com texto de Almeida Faria, amigo do compositor.

 

O grosso da produção de Luís Tinoco, desde 2007, centrou-se fortemente em obras com utilização de texto e voz. A explicação está no seu projecto de doutoramento sobre a adaptação de texto no trabalho de composição musical. Assim, este CD surge também como "um fechar de ciclo, um ponto de chegada num percurso de cinco anos intensamente dedicados à voz humana".

 

"Search Songs" foi escrita em resposta a uma encomenda do Festival do Estoril, para ser estreada pela soprano sul-coreana Yeree Suh e a Royal Philharmonic Orchestra, dirigida por Cesário Costa. Trata-se de um ciclo de canções com textos de um heterónimo menos conhecido na obra de Pessoa, o jovem "Alexander Search".

 

"A escolha de um heterónimo de juventude - numa fase em que Pessoa (através de Alexander Search) ainda procurava uma voz e uma riqueza que viriam a cristalizar-se nos seus principais heterónimos da sua maturidade como poeta -, não foi ingénua. Eu também sentia que esta peça iria ser o início da minha "procura" (como compositor) de outra voz, na qual o elemento melódico iria ser explorado a um nível que, noutras peças anteriores, eu ainda não tinha desenvolvido e aprofundado. É, também, uma peça que nasce da voz da Yeree Suh, das suas impressionantes capacidades e virtuosismo, que eu tinha podido ouvir uns anos antes quando veio a Lisboa para cantar obras de Isang Yun e Unsuk Chin", explica.

 

"From the Depth of Distance", outra peça que é, também, uma espécie de homenagem à voz da solista - neste caso a Ana Quintans, com quem o compositor tinha trabalhado no musical "Evil Machines". A encomenda partiu da Albany Symphony Orchestra, NY; e da Orquestra do Algarve, com o objectivo de ser estreada na abertura das duas temporadas das orquestras.

 

No caso particular da orquestra de Albany, o seu director musical - David Alan Miller - queria que esta composição fosse apresentada num ciclo de concertos intitulado "Voyages of Exploration". Dada a nacionalidade portuguesa de Tinoco, pediu-lhe que escrevesse algo relacionado com as viagens dos navegadores portugueses. "O tema do mar tem potencialidades infinitas e permitia-me, também, encontrar um elo de ligação entre as duas orquestras que iriam estrear a peça. Mas mais do que procurar uma abordagem épica, de elogio de grandes feitos dos nossos navegadores, interessava-me explorar outra dimensão do conceito de viagem, não tanto numa perspectiva geográfica mas, antes, numa abordagem dos grandes mistérios que nos envolvem, na nossa capacidade de nos questionarmos e da nossa obsessão com a procura de respostas", conta.

 

Nesta "viagem interior", optou por regressar a Fernando Pessoa, desta vez na voz de Álvaro de Campos, intercalando fragmentos da "Ode Marítima" com excertos de outro grande poeta, o americano Walt Whitman. A utilização de duas línguas (português e inglês) bem como o recurso aos escritos de dois poetas oriundos dos dois lados do Atlântico, foi uma opção que lhe permitiu reforçar a ligação entre os projectos das duas orquestras que encomendaram a partitura. A ligação de Pessoa com a poesia de Walt Whitman é "sobejamente conhecida e estudada": "no que se refere ao poeta americano, optei por utilizar fragmentos do poema "A Passage to India", no qual são feitas referências directas às viagens dos portugueses e a Vasco da Gama".

 

Finalmente, a peça que fecha o CD - "Canções do Sonhador Solitário", resultou de uma encomenda do Serviço Educativo da Casa da Música. Trata-se de uma adaptação de um conjunto de árias retiradas de uma cantata com libreto de Almeida Faria, com cerca de 40 minutos de duração e que envolvia a participação de um coro infantil, uma voz solista (soprano), um narrador, electrónica (desenhada por Filipe Lopes), projecção de vídeo (desenhado por Jérome Bosc) e, claro, orquestra sinfónica.

 

Esta cantata foi estreada na Casa da Música em Dezembro de 2011, com Ana Quintans como solista. No entanto, para a versão "Canções do Sonhador Solitário", Luís Tinoco optou por convidar Raquel Camarinha, outra cantora que admira "imenso" e com quem já tinha tido trabalhado nas "Evil Machines" e no "Paint Me". Para esta versão, para além de outra voz solista, fez alterações na partitura, reduzindo fortemente os meios necessários à sua realização: "por exemplo, omiti o texto narrado na voz masculina, retirei as partes corais, a electrónica e o vídeo, transformando a cantata num novo ciclo de canções para soprano e orquestra".

 

 

“vivemos num país em que é perfeitamente consensual e pacífico não se conhecer o nosso repertório”

 

“Ando desde 2006, 2007 a tentar gravar este disco. O problema é essencialmente financeiro porque as pessoas, as instituições, desde as privadas às estatais, que poderiam ter interesse, nalguns casos, mais do que interesse, a obrigação e o dever de promover a música portuguesa, pura e simplesmente não se interessam por esta área, e não estou a falar só da música nova, mas da área da música erudita em geral, da música antiga à música moderna”, conta Luís Tinoco.

 

Se a literatura portuguesa e as outras artes nacionais são promovidas em certames e feiras internacionais, por que não acontece o mesmo com a música erudita portuguesa? “No caso da música, se repararem, sempre que aparecem notícias de divulgação do património musical português invariavelmente é o Fado”, aponta.

 

Para o compositor português, o problema vem de cima, das pessoas que ocupam os centros de decisão: “são de uma profundíssima incultura musical, não sabem, não conhecem. Nem é preciso falar só dos compositores contemporâneos, se lhes falarmos, por exemplo, de Carlos Seixas, nunca ouviram. Vivemos num país em que é criminoso não se ter lido As Viagens na Minha Terra ou Os Maias, mas é perfeitamente consensual e pacífico não se conhecer o nosso repertório, desde a música polifónica renascentista à música dos dias de hoje”.

 

De facto, o processo de gravação acaba por ser tornar penoso, não pelo trabalho em si, mas pela incompreensão da sua importância. “O que reparei quando estava a fazer este disco é que as pessoas pura e simplesmente não percebiam qual era a importância de gravar um disco com a Orquestra Gulbenkian para a maior distribuidora internacional a nível da música erudita. É mais fácil, hoje em dia, uma pessoa ter um subsídio estatal para fazer uma conferência sobre a sua música em Badajoz ou em Alicante do que fazer a gravação de um disco que vai ser distribuído no iTunes, na Amazon e pelo planeta fora”, explica.

 

 

“na música erudita não existe retorno financeiro”

 

A par do “total desconhecimento que as nossas instituições e os nossos responsáveis têm de uma área para a qual manifestamente não estão preparados”, há o problema do retorno financeiro. “Se eu puser mecenato ou patrocinar este projecto o que é que eu recebo em troca? E é a verdade que no caso da música, e da música erudita em particular, é uma área onde não existe retorno financeiro, não está dentro de uma lógica de mercado”, sublinha.

 

“Nós vivemos numa época em que as pessoas só pensam em retorno, em moedas de troca, não pensam na riqueza que é, por exemplo, gravar cantores portugueses como a Ana Quintans e a Raquel Camarinha a cantarem textos de Fernando Pessoa. Isso passa-lhes completamente ao lado”, acrescenta.

 

Felizmente o Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian interessou-se pelo projecto, permitindo a sua realização. A Sociedade Portuguesa de Autores também apoiou e uma campanha de crowdfunding fez o resto: “foi incrível ver amigos e pessoas a comprarem o disco em antecipação para ajudar a pagá-lo”.

 

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