Sandra Bastos
A digressão da Páscoa é “outra aventura”. É assim que Dinis Sousa, director artístico, que refere a cada projecto da Orquestra XXI, como uma aventura, um desafio que acaba sempre por surpreender pela positiva, como aconteceu na reabertura do Auditório Gulbenkian, no passado dia 15 de Fevereiro, em que apresentaram em palco a 1ª Sinfonia de Mahler, num arranjo de Iain Farrington para apenas 15 músicos! Mas valeu a pena assumir o risco: “Este arranjo exige que cada músico seja, ao mesmo tempo, solista, músico de câmara e músico de orquestra e foi impressionante ver cada músico do grupo a funcionar nestas diferentes facetas”.
O concerto que marcou a estreia da Orquestra na Fundação Calouste Gulbenkian, depois de ter recebido o prémio FAZ-IOP há apenas alguns meses, esteve esgotado (todos os concertos da reabertura do auditório tinham entrada gratuita) e foi aplaudido em pé pela plateia.
Álvaro Pereira, concertino, confirma que este programa foi arriscado: “considerando a dificuldade da obra que apresentamos, o tempo que tivemos para a preparação e o facto de ser uma estreia a nível nacional este arranjo da 1ª Sinfonia de Gustav Mahler, mas somos todos jovens e cheios de vontade de fazer boa música, e é isso que no final de contas nos une e nos faz arriscar e querer fazer sempre melhor”. Para o violinista, que estuda no conceituado N. A. Rimsky-Korsakov State Conservatory, na classe de violino do professor Alexander Stang, é comunicação pela música que une e dissolve as diferenças entre os músicos: “será essa a maior razão do sucesso da orquestra XXI”.
“Apesar do curto tempo de ensaio que tivemos e da dificuldade da obra, penso que o resultado foi muito bom. Foi um grande orgulho para mim tocar com todos os músicos”, sublinha Filipe Alves, trombonista, o primeiro músico português a integrar a Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim.
Também academista da Filarmónica de Berlim, Ricardo Silva, trompista, reconhece que foi um projecto muito interessante: “Nunca tinha tocado antes uma redução uma obra orquestral para um ensemble destes e gostei bastante. Para além disso foi um prazer poder tocar com músicos portugueses de tão alto nível e num auditório destes”.
Para a flautista Adriana Ferreira, solista da Orquestra Nacional de França, foi um concerto “preparado de uma forma muito organizada, pautando-se pela boa-disposição de todos os envolvidos e, acima de tudo, pelo trabalho eficaz, deixando qualquer individualidade de lado em prol do bem comum da orquestra”.
“o orgulho de ser português que nos caracteriza”
“Um grupo de amigos que trabalha muito bem em conjunto”, diz Dinis Sousa. Será esta a particularidade da Orquestra XXI? “Acho que isso é um factor importantíssimo para a orquestra, toda a gente dá o seu melhor constantemente mas o ambiente que se cria é tão bom que não se torna cansativo”.
“Pela primeira vez sinto que é um projecto super humilde em que todos trabalhamos no mesmo sentido, sem interesses e 'máfias' por detrás”, confessa Ricardo Silva. Sem a utopia da perfeição, como explica Álvaro Pereira: “Não somos perfeitos, e não é isso que procuramos, mas "tocar" de alguma forma em cada uma das pessoas que esteja sentada no público, trazendo-lhes um bocadinho do que vimos e ouvimos por esse mundo fora, e o orgulho de ser português que nos caracteriza”.
Depois da Páscoa, a orquestra volta no início de Setembro, com moldes semelhantes à primeira digressão. A ideia, por enquanto, é fazer uma digressão no final do Verão e outra na época da Páscoa, com abertura a projectos pontuais noutras alturas, como aconteceu com o último concerto na Gulbenkian. “A orquestra nunca terá a regularidade de uma orquestra a tempo inteiro e nem é esse o objectivo. Claro que uma orquestra que toca em conjunto todos os dias fá-lo cada vez com mais facilidade, mas penso que para nós também é importante que cada digressão, cada concerto ou mesmo cada ensaio seja um evento”, diz o maestro Dinis Sousa, que frequenta o Mestrado em Performance na Guildhall School of Music and Drama, em Londres.
A maior expectativa é, assim, a continuidade: “A Orquestra XXI ainda agora começou. É um projecto que está a crescer aos poucos e eu sinto que há uma grande vontade da parte dos músicos de fazer mais e melhor”. Os músicos são, assim, o maior incentivo: “Cada ensaio que temos é, para mim, uma motivação para fazer tudo para que o projecto continue. O nível dos músicos é fora de série e a dimensão humana deste grupo é muito importante - a entrega de cada um deles ao projecto é algo que me surpreende constantemente”.
A longo prazo, pretende que os músicos emigrantes “não se afastem tanto da cultura portuguesa”. Um projecto que “surgiu num momento extremamente difícil para a cultura (e não só) em Portugal”, quando cada vez “mais músicos tenham que sair do país para procurar trabalho no estrangeiro”. “Acho que é também é muito importante haver uma passagem de testemunho destes músicos a uma geração mais nova, como fazemos nos estágios para jovens de conservatórios e escolas de música portuguesas”, acrescenta.
“pessoas com bom senso, que amem a Arte, vão ajudar-nos a ultrapassar esta era menos positiva da cultura portuguesa”.
Para Filipe Alves, actualmente solista na Staatsoper Hamburg e Orquestra Filarmônica de Hamburgo, “as oportunidades neste momento em Portugal são uma miragem”. Espera, por isso, poder “motivar todos os grandes músicos que temos no nosso país, que por vezes não têm oportunidades de trabalho e de mostrar o seu valor em Portugal, a arriscarem no estrangeiro. Esta geração actual de músicos portugueses tem muita qualidade. Tenho a certeza que se arriscarem, terão as oportunidades com que sempre sonharam”.
Adriana Ferreira acha que “os estágios abertos a músicos participantes externos à orquestra, bem como a pluralidade de locais de concerto constituem um bom começo para a contribuição directa dos seus membros à comunidade musical portuguesa”.
“Um dos maiores sonhos de qualquer músico português, e não só da orquestra XXI, é contribuir para o "panorama da Música em Portugal", que infelizmente é manipulado por pessoas que não amam a Música, e assim sendo tomam muitas decisões de ânimo leve, que muitas das vezes nos impossibilitam (a nós que vivemos para a Música) de contribuir para que haja um crescimento e uma evolução cultural”, aponta Álvaro Pereira. Acredita, porém, que “pessoas com bom senso, que amem a Arte, vão ajudar-nos a ultrapassar esta era menos positiva da cultura portuguesa”.
“só em Berlim existem mais orquestras profissionais que em Portugal inteiro”
E o que tem o estrangeiro que falta a Portugal?
“Os apoios que dão à cultura na Alemanha”, indica Filipe. “A tradição musical, que faz parte de toda a sociedade alemã. Em Portugal temos uma grande tradição das bandas filarmónicas, onde grandes músicos de sopros têm começado. Mas infelizmente no que diz respeito a orquestra essa tradição não existe, temos muito poucas orquestras no nosso país. Por exemplo, só em Berlim existem mais orquestras profissionais que em Portugal inteiro”, acrescenta.
Ricardo gostava que “o público português tivesse mais possibilidades de ouvir orquestras alemãs, assim como ter contacto com grandes músicos. Infelizmente Portugal não é um destino frequente nas 'tours' das orquestras. E sempre que vão limitam-se a um concerto, o qual fica sempre esgotado antes sequer de sair no programa”.
Em França, na opinião de Adriana, “a valorização da música e dos músicos franceses é uma característica extremamente vincada do panorama musical francês”. É um bom exemplo: “deveríamos dar mais atenção à música e aos músicos portugueses (residentes em Portugal ou na diáspora), contribuindo assim de maneira consciente para o desenvolvimento de uma tradição musical profícua”.
Da Rússia, Álvaro destaca “o amor pela música clássica” que falta aos portugueses, embora considere que “o povo Russo é mais parecido com o português do que muitas pessoas imaginam, é um povo muito apaixonado, por vezes muito melancólico”. E como “não se alcança nada sem muito trabalho, dedicação e disciplina”, o violinista traria também “um bocadinho de disciplina”.